The Long Goodbye

31 Aug

No mês que vem, o Turco larga o serviço do Serralho.
O pequeno-médio experimentador de fez na cabeça termina pois a sua visitação do harém, levando mais um fenómeno para o seu cabinet de curiosités.
Regressado que será à vida normal (na medida em que há uma vida normal, ou ainda, na medida em que, havendo uma vida normal, o Turco alguma vez a fará sua), cessam os pressupostos higienistas que levaram à criação deste blogue.
Serve assim o presente para dizer adeus, e muito obrigado.

Theatre of Dreams

30 Aug

Na sua célebre descrição do chamado Westminster model, Arend Lijphart não cessa de chamar a atenção para o carácter lúdico da política de matriz anglo-saxónica: o bipartidarismo à inglesa, além de supostamente incarnar uma contradição social fundamental, que torna o modelo maioritário na tradução política mais sintética e aperfeiçoada da realidade da moderna sociedade de classes, apresenta-se também como um combate entre dois contendores, que a disposição da Câmara dos Comuns, em bancadas que se confrontam, no lugar do clássico hemiciciclo, tão bem simboliza. O materialismo histórico de Walter Benjamin partilha esta espécie de teatralidade: os modos de produção parece que não se sucedem pela contradição do desenvolvimento das forças produtivas com as relações sociais de produção, e não há uma palavra de reconhecimento, como em Marx, do papel passado da burguesia, antes dessa classe outrora revolucionária se ter transformado ela própria num peso morto da história; para W.B., a história da humanidade enquanto história da luta de classes consiste simplesmente numa luta entre oprimidos e opressores sem pretensões à cientificidade, em que a dimensão económica não conta e a noção de progresso (o tal desenvolvimento das forças produtivas, que no limite livrará a humanidade da canga do trabalho) também não existe. O revisionismo de W.B. como que estetiza o materialismo histórico, transformando a história num drama errático e sem fio condutor – que só não é uma tragédia porque existe, como agora se diz, a “hipótese comunista” – a que Benjamin chamaria messiânica.

Ainda a filosofia trágica da história – Casos práticos

29 Aug

Nos números 13, 14 e 15 do vol. 34 da London Review of Books, Perry Anderson escreveu um ensaio notável sobre a história da Índia no século XX, dos tempos do Raj à actualidade, com a partition pelo meio. Em geral, e muito em síntese, a apreciação do papel de Gandhi, Nehru e do Partido do Congresso é crítica, e o estilo self-congratulatory da moderna historiografia indiana não é poupado. No n.º 16 do mesmo volume, chovem as cartas, quase todas oriundas do Subcontinente, e quase todas a fustigar o autor – acusado, como seria previsível, de “orientalismo”. A mais explícita de todas reconhece: Gandhi poderá ter sido, como afirma P.A., um sectário anti-muçulmano, um místico obscurantista e um defensor reaccionário do sistema de castas – mas hoje a Índia é livre. Anteontem à noite por desfastio, depois da derrota do Sporting, procurei filmes de guerra na TV, e acabei por encontrei um no Canal História sobre a II Guerra Mundial. Don’t get me wrong: ver os Übermenschen espezinhados pelo Exército Vermelho é algo que me emocionará sempre até morrer – mas tirar a conclusão de que Stalin tinha necessariamente razão porque Stalin ganhou de facto a guerra parece-me muito estúpido – tragicamente estúpido.

Um paradoxo

28 Aug

O dano que o “equívoco construtivo” pode causar é, paradoxalmente, proporcional à qualidade do seu desenho e à sua eficácia, pois se for bem concebido, durará muito tempo, se durar muito tempo, perde a aparência de equívoco, e assim, quando (inevitavelmente?) se desfizer, colherá a todos de surpresa e deixará (quase) todos sem explicação. Parecerá a mão do destino, mas foi apenas culpa do turco (um hedonista, parece, que achou o equívoco confortável).

Páginas da história turca – Nas origens da Turquia moderna – A política externa

27 Aug

Nas variegadas negociações diplomáticas em que interveio ao serviço da Sublime Porta, e sempre que um acordo com as outras Potências parecia impossível, o turco lançava mão de um expediente: o “equívoco construtivo” – ou seja, e recordando a velha noção escolástica das palavras enquanto flatulências e não essências, lançava mão de palavras que para si tinham um sentido e para a outra parte o seu contrário, com o fito de ganhar a paz (nem que fosse de espírito). Tal não fazia de si, pensava ele, un turc tricheur; porém, e como diria o poeta, o “equívoco construtivo” era um expediente, não era uma solução, e, quando era desmascarado, era-o sempre com estrépito: à paz podre seguia-se a guerra aberta, pois que todos se sentiam enganados. O turco demorou tempo até identificar o problema e deixar-se de facilitismos.

Sobre a chamada “filosofia trágica da história”

26 Aug

A chamada “filosofia trágica da história” não deve ser entendida como respeitante ao passado “tal qual ele se passou” à moda de Ranke ou da historiografia dos vencedores que ele representa; não se trata de privilegiar o ponto de vista de reis, papas ou imperadores, a coberto de uma suposta neutralidade que despreza a perspectiva dos vencidos, mas de interpretar, à maneira grega, a realidade passada como uma inevitabilidade, um fatum, que em nada preclude a hipótese revolucionária – que, a suceder, estava também escrito que sucederia.

Ficções

25 Aug

A profusão de posts assinalando o 113º aniversário de Jorge Luís Borges que desde ontem de manhã se foi acumulando no facebook deu-me claramente a entender que, antes que acabasse o dia 24 de Agosto de 2012, eu estava destinado a encontrar-me com o grande aedo argentino. O encontro deu-se pouco antes da meia-noite, depois de um gin tónico propiciatório, na Ler Devagar mesmo ao lado, onde há vários meses mão muito amiga (posso chamar-te cross-fertiliser?) me tinha dado a conhecer o belíssimo Juan Rulfo, e onde antes ainda eu comprara um livrinho precioso traduzido na Cotovia sobre um dos mistérios que mais inquietam a minha vida: a decifração do linear B. Por três modestos euros, pude pois transportar-me da Rua de Buenos Aires, aonde mais ou menos vivo, para “A Buenos Aires de Borges”, título de uma obra de geografia literária, profusamente ilustrada, que me parece um excelente contributo para entender o modus operandi de Borges na transformação de uma metrópole real, carregada de habitantes, numa entidade metafísica, do tipo exemplar. O meu problema agora é de arrumação, porque os meus Borges são pequeninos, da Alianza de Bolsillo, e este livro da Teorema parece pai deles, e colocá-los lado a lado ofende o maníaco que há em mim. Acho que vou arrumá-lo ao lado de Chandlertown, outro gigante que comprei há alguns vinte e tal anos, acho que em Bruxelas, e que estava a precisar de ser amparado.